Lesões Celulares: irreversíveis
DEGENERAÇÃO HIDRÓPICA
Conceito e características gerais
A degeneração hidrópica, também denominada tumefação celular, alteração hidrópica ou degeneração vacuolar, corresponde a uma das principais manifestações morfológicas da lesão celular reversível. Trata-se de uma alteração decorrente da incapacidade da célula em manter adequadamente sua homeostase iônica e hídrica, levando ao acúmulo de água no citoplasma e ao aumento do volume celular. É particularmente frequente em situações de hipóxia, isquemia, exposição a toxinas e outros estímulos capazes de comprometer o metabolismo energético celular. Embora seja reversível, pode representar uma manifestação inicial de um processo de lesão progressiva quando a agressão persiste ou apresenta intensidade suficiente para ultrapassar a capacidade de recuperação da célula.
Mecanismo da degeneração hidrópica
A base fundamental da degeneração hidrópica está na redução da disponibilidade de ATP. Quando ocorre comprometimento da fosforilação oxidativa, especialmente pela deficiência de oxigênio, a atividade da Na⁺/K⁺-ATPase é prejudicada. Com isso, o sódio se acumula no citoplasma, enquanto ocorre perda de potássio para o meio extracelular. O aumento da concentração intracelular de Na⁺ eleva a osmolaridade e promove a entrada de água para o interior da célula, causando sua tumefação e a dilatação de compartimentos citoplasmáticos, especialmente do retículo endoplasmático. A redução do ATP também aumenta a dependência da glicólise anaeróbica, levando ao consumo das reservas de glicogênio e à formação de ácido láctico, com redução do pH intracelular. Além disso, ocorre redução da síntese proteica, associada à dilatação do retículo endoplasmático e ao desprendimento dos ribossomos.
Alterações morfológicas
Macroscópicas
Morfologicamente, quando um número significativo de células é acometido, o órgão pode apresentar aumento de peso, maior turgor e aspecto mais pálido, em parte pela compressão dos capilares pelas células aumentadas de volume.
Microscópicas
À microscopia óptica, observam-se células aumentadas de volume, com citoplasma mais claro e pequenos vacúolos citoplasmáticos, correspondentes principalmente à dilatação do retículo endoplasmático.
Ultraestruturais
Em nível ultraestrutural, podem ser observadas tumefação das mitocôndrias, dilatação do retículo endoplasmático, desprendimento dos ribossomos, alterações da membrana plasmática, incluindo formação de bolhas ou protrusões, além de condensação da cromatina. Também podem aparecer figuras de mielina, constituídas por massas de fosfolipídios derivadas de membranas celulares lesionadas.
Reversibilidade e progressão da lesão
A degeneração hidrópica é reversível quando a agressão é interrompida antes que ocorra dano celular grave. Com a recuperação do metabolismo energético, os gradientes iônicos são restabelecidos e o excesso de água é removido, permitindo o retorno da célula à sua estrutura e função habituais. Entretanto, quando a agressão persiste ou é intensa, ocorre progressão do dano mitocondrial e das membranas, aumento do Ca²⁺ intracelular e comprometimento irreversível da função celular, podendo culminar em morte celular, frequentemente por necrose.

Fonte: Anatpat- https://anatpat.unicamp.br/lamdegn2.html
ESTEATOSE
Conceito e características gerais
A esteatose, também denominada degeneração gordurosa, corresponde ao acúmulo anormal de triglicerídeos no interior das células e constitui uma das formas mais comuns de acúmulo intracelular de lipídios. Embora possa ocorrer em diferentes órgãos, apresenta particular importância no fígado, em razão de sua participação central no metabolismo dos ácidos graxos, na síntese e na distribuição dos lipídios. A alteração se estabelece quando a quantidade de ácidos graxos que chega ou é produzida pela célula, associada à formação de triglicerídeos, ultrapassa sua capacidade de utilização metabólica ou de exportação. Dessa maneira, a esteatose resulta de um desequilíbrio entre os processos envolvidos no metabolismo e no transporte dos lipídios. Em muitas situações, trata-se inicialmente de uma alteração reversível; entretanto, quando o estímulo responsável persiste, o acúmulo lipídico pode contribuir para a progressão da lesão celular e, particularmente no fígado, para o desenvolvimento de inflamação e fibrose.
Metabolismo dos lipídios no hepatócito
No hepatócito normal, os ácidos graxos chegam à célula principalmente pela circulação, provenientes da dieta e da mobilização dos depósitos de gordura do tecido adiposo. No interior do hepatócito, podem ser utilizados na β-oxidação para produção de energia ou esterificados para formar triglicerídeos. Esses triglicerídeos podem ser armazenados temporariamente ou incorporados às lipoproteínas de muito baixa densidade, as VLDL, permitindo sua exportação para a circulação. A esteatose ocorre quando esse equilíbrio é rompido, de modo que a entrada ou produção de ácidos graxos e a formação de triglicerídeos ultrapassam sua capacidade de oxidação ou exportação, levando à retenção progressiva de lipídios no citoplasma. Esse desequilíbrio pode resultar de diferentes alterações metabólicas, como aumento da chegada de ácidos graxos ao fígado, aumento da síntese de ácidos graxos e triglicerídeos, redução da β-oxidação ou comprometimento da formação e secreção das VLDL. Assim, diferentes agressões podem produzir a mesma alteração morfológica final por mecanismos distintos, mas todos convergem para o acúmulo de triglicerídeos no interior da célula.
Principais mecanismos e causas
Consumo de álcool
O consumo de álcool constitui uma causa importante de esteatose hepática e interfere diretamente no metabolismo dos ácidos graxos. A metabolização do etanol aumenta a produção de NADH, alterando o estado redox do hepatócito e favorecendo condições que dificultam a β-oxidação e aumentam a esterificação dos ácidos graxos em triglicerídeos.
Resistência à insulina
Alterações relacionadas à resistência à insulina também desempenham papel importante na formação da esteatose hepática. Nesse contexto, ocorre maior mobilização de ácidos graxos a partir do tecido adiposo, aumentando seu fluxo para o fígado. Paralelamente, alterações do metabolismo da glicose e dos lipídios podem favorecer a síntese hepática de ácidos graxos e sua esterificação em triglicerídeos. Quando a oxidação e a exportação por VLDL não conseguem acompanhar essa maior disponibilidade, ocorre armazenamento progressivo de gordura nos hepatócitos. Por esse motivo, a esteatose é frequentemente observada em associação com obesidade, resistência à insulina e diabetes mellitus tipo 2.
Dificuldade de exportação dos lipídios
A dificuldade de exportação dos lipídios representa outro mecanismo relevante. Os triglicerídeos precisam ser incorporados às VLDL para serem transportados pela circulação, processo que depende da disponibilidade de proteínas e outros componentes necessários à sua formação e secreção. Quando esse mecanismo é prejudicado, os triglicerídeos produzidos no fígado permanecem na célula e se acumulam. Situações associadas à deficiência nutricional e determinadas toxinas podem interferir nesse processo, contribuindo para o desenvolvimento da esteatose.
Alterações morfológicas
-
Esteatose macrovesicular
Do ponto de vista morfológico, a esteatose apresenta diferentes padrões de acordo com o tamanho das gotículas lipídicas acumuladas. Na forma macrovesicular, grandes gotículas de gordura ocupam o citoplasma e podem deslocar o núcleo do hepatócito para a periferia, conferindo à célula um aspecto característico. Esse é o padrão mais frequentemente observado em diversas formas de doença hepática associada ao álcool e em distúrbios metabólicos.
-
Esteatose microvesicular
Na esteatose microvesicular, por outro lado, numerosas pequenas gotículas lipídicas se acumulam no citoplasma, sem produzir o mesmo deslocamento periférico do núcleo.
Aspectos macroscópicos e microscópicos
A distribuição e a intensidade do acúmulo de gordura determinam também o aspecto macroscópico do órgão. No fígado, quando a esteatose é acentuada, pode ocorrer aumento do volume e do peso do órgão, acompanhado de coloração amarelada e aspecto amolecido e untuoso. Microscopicamente, os hepatócitos apresentam vacúolos citoplasmáticos correspondentes às gotículas lipídicas. Na forma macrovesicular, a grande gotícula pode ocupar grande parte do citoplasma e deslocar o núcleo para a periferia. Na preparação histológica convencional, entretanto, o processamento do tecido utiliza solventes orgânicos capazes de remover os lipídios, de modo que aquilo que originalmente correspondia à gotícula de gordura aparece como um espaço claro e vazio no citoplasma.
Reversibilidade
A esteatose inicialmente pode ser revertida quando o fator responsável pelo desequilíbrio metabólico é removido. Com a interrupção da agressão, o metabolismo celular pode ser restabelecido e os triglicerídeos acumulados podem ser progressivamente mobilizados. Por esse motivo, a presença de esteatose não significa necessariamente que tenha ocorrido dano celular permanente. Entretanto, a persistência do estímulo pode favorecer estresse celular e progressão da lesão.
Progressão da lesão hepática
No fígado, essa progressão pode manifestar-se pelo desenvolvimento de esteato-hepatite, na qual o acúmulo de gordura passa a coexistir com lesão dos hepatócitos e resposta inflamatória. A manutenção desse processo pode estimular deposição progressiva de matriz extracelular e fibrose. Com a continuidade da agressão e o avanço da fibrose, pode ocorrer distorção da arquitetura hepática e desenvolvimento de cirrose. Dessa forma, embora a esteatose represente inicialmente uma alteração reversível do metabolismo intracelular dos lipídios, sua persistência pode participar de uma sequência de eventos capazes de produzir lesão hepática crônica e comprometimento progressivo da função do órgão.

Fonte: MITCHELL, Richard N.; KUMAR, Vinay; ABBAS, Abul K.; ASTER, Jon C. Robbins & Cotran: Fundamentos de Patologia. 9. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2017.
LIPIDOSES
Conceito e mecanismo
As lipidoses correspondem a um grupo de alterações caracterizadas pelo acúmulo intracelular anormal de lipídios complexos, principalmente esfingolipídios e glicolipídios. Diferentemente da esteatose, em que ocorre predominantemente o acúmulo de triglicerídeos, as lipidoses estão geralmente relacionadas a defeitos na degradação de determinados lipídios, sobretudo por alterações de enzimas lisossômicas. Quando uma dessas enzimas está ausente ou apresenta atividade reduzida, o substrato que deveria ser degradado não é adequadamente metabolizado e se acumula progressivamente dentro da célula.
Alterações lisossômicas e acúmulo intracelular
Os lisossomos participam da degradação de diferentes componentes celulares por meio de enzimas hidrolíticas. Nas lipidoses, a deficiência de uma dessas enzimas interrompe uma etapa específica desse processo, fazendo com que o substrato permaneça armazenado no interior dos lisossomos. Com a progressão do acúmulo, os lisossomos aumentam de tamanho e ocupam uma parcela cada vez maior do citoplasma. A intensidade e a distribuição desse armazenamento dependem do tipo de lipídio acumulado e da enzima comprometida. Por isso, algumas doenças apresentam predomínio em macrófagos de órgãos como fígado, baço e medula óssea, enquanto outras acometem principalmente neurônios.
Principais lipidoses
-
Doença de Gaucher
Na doença de Gaucher, a deficiência da β-glicocerebrosidase provoca acúmulo de glicocerebrosídeos nos macrófagos. Na histologia, essas células encontram-se aumentadas e apresentam citoplasma abundante, pálido e preenchido por material de armazenamento, com aspecto caracteristicamente fibrilar ou estriado, semelhante a “papel de seda amassado”. O núcleo permanece relativamente preservado, enquanto o citoplasma aumentado é a principal característica da célula de Gaucher. Essas células podem estar presentes na medula óssea, no fígado e no baço, podendo substituir progressivamente o tecido normal quando o armazenamento é intenso.
-
Doença de Tay-Sachs
Na doença de Tay-Sachs, a deficiência da hexosaminidase A leva ao acúmulo de gangliosídeo GM2 nos neurônios. Microscopicamente, os neurônios apresentam aumento de volume e citoplasma intensamente preenchido por material de armazenamento, decorrente da distensão dos lisossomos. O núcleo pode permanecer deslocado em relação ao grande volume citoplasmático. Em cortes histológicos do sistema nervoso, o achado fundamental é, portanto, a presença de neurônios aumentados e com citoplasma repleto de material armazenado, acompanhados de alterações degenerativas à medida que a doença progride.
-
Doença de Niemann-Pick
Na doença de Niemann-Pick, especialmente nas formas associadas à deficiência de esfingomielinase, ocorre acúmulo de esfingomielina. O achado histológico clássico é a presença de células espumosas, cujo citoplasma apresenta numerosas áreas claras e vacuolizadas correspondentes ao material lipídico armazenado. Essas células são encontradas principalmente em órgãos ricos em células do sistema fagocitário mononuclear. O aspecto espumoso resulta da grande quantidade de lipídio armazenado no citoplasma e constitui uma característica importante para o reconhecimento microscópico dessas doenças.
Aspectos histológicos gerais
De maneira geral, o aspecto histológico das lipidoses resulta diretamente da forma como o material de armazenamento modifica o citoplasma. As células podem apresentar aumento de volume, citoplasma pálido ou espumoso, múltiplas áreas de armazenamento e distensão dos lisossomos. O padrão, entretanto, não é idêntico em todas as doenças: a natureza do lipídio acumulado determina as características morfológicas observadas. Assim, o reconhecimento da lâmina depende de relacionar o tipo celular acometido, a localização do depósito e o aspecto do citoplasma.



Fonte: Anatpat- https://anatpat.unicamp.br
REFERÊNCIAS:
-
BRASILEIRO FILHO, Geraldo. Bogliolo: patologia. 10. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2021.
-
KUMAR, Vinay; ABBAS, Abul K.; ASTER, Jon C. Robbins & Cotran: patologia: bases patológicas das doenças. 10. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2023.
